September 2, 2021

Investir é preciso...

por Daniel Perdomo

e os retornos não são precisos.

Enquanto investir é necessário, nem sempre os retornos terão a precisão ou acurácia esperados pelos investidores.

Com toda a reverência que Fernando Pessoa merece e utilizando do advento da licença poética, reformulei uma de suas frases para dar título a este texto.

Sabemos que investir é necessário, mas é importante que saibamos que as condições determinantes dos resultados não são rígidas e que os retornos que obteremos ao longo do caminho também não serão fixos. Ainda que levemos em consideração a popular renda fixa, os resultados não são constantes, já que os benchmarks também não o são. O retorno é relativo e a incerteza é eterna.

Benchmarks

são índices de referências adotados para avaliação da performance de investimentos. Os mais comuns são índices de juros como CDI e SELIC ou de alguma forma atrelados à inflação, como IPCA ou IMA.

Quando tomamos a decisão de investir, temos um objetivo mínimo que se aproxima da unanimidade: manter ou aumentar o poder de compra do capital com retornos acima da média do mercado financeiro, de acordo com o nosso perfil de investidor.

Esse retorno excedente à média só será possível se tivermos vantagens competitivas em relação ao conjunto de investidores dos diferentes nichos do mercado financeiro. Baseando-se na bibliografia existente, na observação do comportamento das pessoas, do mercado e dos preços dos ativos, ao longo dos treze anos que participo deste ecossistema, a superioridade dos resultados é proveniente de três fontes: informações prévias, conhecimento e comportamento.

Informações prévias

Com o fácil acesso das pessoas às informações disponíveis e à comunicação baseada em tempo real, principalmente devido à difusão da internet ao redor do globo, é difícil obtermos informações relevantes que não sejam rapidamente incorporadas nos preços dos ativos. Essa velocidade faz com que a assimetria de preços após a divulgação de dados seja cada vez mais curta – e até irrelevante.

Tendo em vista o exposto acima, a possibilidade de uma vantagem competitiva seria o uso de informações que ainda não sejam de conhecimento público. Contudo, sabemos que negociar valores mobiliários com base em informações que ainda não possuem divulgação geral, com o objetivo de lucrar ou obter vantagem, é tipificado como insider trading (crime segundo a legislação brasileira). Nesse sentido, coibimos tal prática.

Ainda que tenhamos rápido acesso às informações já públicas com busca direta na fonte, existem sistemas de negociação que filtram essas informações e atuam em milésimos de segundos. Portanto, não estamos diante de uma vantagem competitiva de longo prazo que geraria retornos consistentes.

Conhecimento

Já o conhecimento técnico, aliado a uma boa capacidade analítica, confere uma modesta vantagem competitiva ao investidor, já que parte considerável dos investidores não dedica tempo ao aprendizado e também não busca profissionais isentos e qualificados para colaborar com o processo decisório. 

Como dito no início deste documento, a certeza total inexiste.  Se temos que tomar uma decisão ou definirmos uma escolha, isso por si só já caracteriza que estamos em um ambiente incerto. Contudo, incerteza nem sempre será sinônimo de excesso de risco.

Para refletirmos: um médico está em uma situação difícil, na qual haverá brechas em seus conhecimentos. Ele não sabe o que poderá encontrar ao operar um paciente que chegou em um estado grave na emergência, tem informações incompletas sobre as condições clínicas anteriores e os motivos que o levaram àquele estado. Porém, no seu processo de tomada de decisão sobre qual o melhor procedimento a ser utilizado, ele considerará fatores intrínsecos à sua formação acadêmica, como o protocolo “ABCDE do Trauma”. O médico receberá o paciente e verificará, dentro da seguinte ordem, estabelecida pelo potencial risco à continuidade da vida:

  • A — Airway: manutenção das vias aéreas e controle da coluna cervical
  • B — Breathing: avaliação e manutenção da respiração e ventilação
  • C — Circulation: manutenção da circulação sanguínea e controle de hemorragias
  • D — Disability: avaliação neurológica
  • E — Exposure: busca de fraturas e hemorragias, com atenção ao controle da temperatura 

Após esse processo, se iniciam as avaliações secundárias.

Desta forma, o médico aceita a incerteza – já que tem conhecimento sobre as premissas básicas para atuar dentro das assimetrias existentes. Caso o profissional não estivesse preparado para atuar em ambientes incertos, ele não tomaria nenhuma decisão e o risco da omissão, pelo receio de errar, poderia ser muito maior.

Assim, investir sob a improbabilidade é inevitável. Contudo, se tivermos as premissas certas, podemos mitigar grande parte da incerteza no estágio inicial, proporcionando uma margem para erros. Porém, o principal aprendizado é podermos reconhecer aquilo que está sob nosso controle e aquilo que não temos nenhuma ingerência. Essa conscientização favorecerá e fortalecerá a maior e mais duradoura vantagem competitiva de qualquer investidor: o comportamento.

Comportamento

Em comunicação anterior (artigo “Vieses dos Investidores”), demonstramos os vieses comportamentais mais comuns, aqueles que explicam os motivos de tomarmos decisões erradas. Entretanto, saber os motivos não é suficiente. Temos que evitar os erros, que costumam surgir nas seguintes situações:

  • Tomar decisões em momentos de extremo cansaço, desgastados emocionalmente ou sob urgência.
  • Tomar decisões rápidas para solucionar problemas, supostamente seus, trazidos por outra pessoa sem conhecimento do assunto, sob a ótica dela. 
  • Tomar decisões baseadas em notícias de jornais, conteúdos de redes sociais ou comentários de terceiros. 
  • Não refletir sobre os desdobramentos das possíveis decisões.
  • Persistir em convicções erradas, defendendo um ponto de vista apenas por ter sido emitido por você.

Não tomar más decisões, no médio prazo, levará a resultados tão consistentes quanto fazer algumas boas escolhas. Conhecer o comportamento humano, quais são os gatilhos (por vezes anímicos) que desencadeiam julgamentos equivocados e possuir um conjunto de premissas a serem seguidas dentro do processo decisório limitará as perdas e, por conseguinte, a necessidade do acaso para que você obtenha resultados consistentes ao longo do tempo.

Anexo

ABCDE... da escolha de bons ativos (básico)

Como investir é preciso, mesmo em tempestades perfeitas, utilizarei o espaço para difundir algumas ideias que considero um norte, uma carta de navegação superficial, para reduzir a margem de erro na escolha de ativos e na constituição de um portfólio de médio e longo prazos:

O que observar ao escolher empresas (ações)

  1. Dívida equilibrada.
  2. Ações negociadas no Novo Mercado (segmento da Bolsa que exige elevado padrão de governança corporativa).
  3. Histórico de lucros anuais consistentes.
  4. Gestão idônea.
  5. Executivos de reconhecida capacidade técnica.
  6. Companhia sólida em seu ramo de atuação.
  7. Liquidez de negociação no Ibovespa.
  8. Existência de barreiras à entrada de competidores.
  9. Setor com possibilidade de crescimento ao longo do tempo.
  10. Responsabilidade socioambiental.

Fundos de Investimentos

  1. Possuam equipes de gestão.
  2. Possuam decisão consensual para escolha de ativos: se não houver consenso, o papel não será adquirido/investido.
  3. A área de gestão de risco tem poder decisão.
  4. Priorizam a liquidez de ativos para troca rápida de posições
  5. Possuam stops nas posições
  6. Estão sempre com proteções nas carteiras.
  7. A preservação do patrimônio é premissa.
  8. Possuam patrimônio líquido máximo predefinido (fecham os fundos para novas aplicações).
  9. Façam revisão diária do portfólio de investimentos.
  10. Não possuam alavancagem excessiva.
  11. A equipe trabalha em conjunto há um bom tempo.
  12. Principais gestores possuam experiência.
  13. Apresentem consistência ao longo dos anos e dos diversos momentos econômicos.

Crédito privado

  1. Escolher emissores com grau de investimento de acordo com o rating de crédito (quanto mais próximo do AAA, melhor) e acompanhar eventuais transições de rating até o vencimento do papel.
  2. Emissões com garantias reais (bens específicos destinados para garantir o pagamento dos investidores).
  3. Destinação dos recursos captados deve fazer sentido com a estrutura da empresa, com o cenário econômico e com as expectativas para o setor. 
  4. Empresas com balanços confiáveis e fluxo de caixa contínuo.
  5. Preferência por emissores de baixo risco setorial: energia elétrica, saneamento e ferrovias. 
  6. Limitar os prazos de vencimento.
  7. Papeis com fluxo de pagamentos periódicos (juros e amortização) para reduzir o risco. 

“Algumas pessoas se sentem afrontadas quando algo que pensavam ser verdade não acontece. Se for esse o caso, então sua sensação de risco é muito maior e isso leva à aversão ao risco. Você precisa ser capaz de se sentir confortável na incerteza.”

Jim Mattis

Jim Mattis

ex-secretário de Defesa dos Estados Unidos

Daniel Perdomo.

Economista pela PUC Minas, especialista em Finanças pela Fundação Dom Cabral, certificação em economia, contabilidade e análise de negócios HBS CORe pela Harvard Bussines School. Certified Financial Plannner CFP®, desde 2017. Possui 13 anos de experiência no mercado financeiro com passagens por Caixa Econômica Federal, JP Morgan Private e Banco do Brasil Private.